quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Crônica sobre a chuva que caiu em Porto Alegre
Sexta-feira, 2 de maio de 2008


Hoje foi um dia



















Desculpe, estou com fome. Hoje caiu chuva em Porto Alegre. Hoje caiu chuva por 12 horas – e talvez chova mais. A Nilo Peçanha foi interditada, e só três clientes entraram na loja. Foi o tipo de dia em que se abre os olhos pensando em tomar um banho quente quando tudo tiver terminado. Nós, as proletárias, fechamos a loja falando de como o patrão sempre se dá bem, em toda e qualquer hipótese. E isso não chega a ser revoltante, não pra mim, que acredito na selvageria humana como força motriz da nossa sociedade. Fico feliz por saber que nesse momento tem gente em Punta, em Gramado, ou mesmo em Torres ou Atlântida, curtindo as good vibes de um fortuito feriadão. Eu penso: que bom. Alguém precisa se divertir. É claro que eu também garanto a minha diversão. Já que nossa chefe está degustando vinhos na Argentina, vamos levar amanhã pro trabalho filmes e álbuns do Frank Sinatra: a Marga, faxineira, vai levar um filme, e a Patrícia, minha colega de vendas, vai levar as músicas. Ela adora Frank Sinatra. Hoje traduzi pra ela a letra de algumas músicas. Ela levou as impressões e eu traduzi ao lado de cada letra. Isso significa que amanhã nós vamos passar um sábado esquizofrênico, dentro de um lugar em que poucas pessoas entram e que é alheio ao desabar das nuvens obesas.
Antes de sair do trabalho, troquei minhas sapatilhas por botinas bordô. Coloquei uma meia de lã por cima da meia-calça, que já estava úmida, porque ao meio-dia eu tive algumas coisas pra resolver. Então, o vento começou, e eu lembrei de uma tal história de ciclone gaúcho. Como achei que isso soava sensacionalista, resolvi ignorar o problema. Lembrei, então, da primeira vez em que vi um guarda-chuva virar: foi em São Leopoldo, com a minha mãe, um guarda-chuva grande e preto ficou convexo e saiu pela rua, capotando. Me senti desamparada. Já tinha visto em filmes,o que tornou a experiência da vida real mais marcante. Porque é como se você tivesse quinze anos e interpretasse o Clint Eastwood ou um garanhão de novela pra ter coragem de chegar perto da garota, olhá-la nos olhos e fazer tudo da forma adequada. Entende.
Eu sentia nas canelas os sopros de água grudando na meia-calça. Spray. Cheguei à parada de ônibus de maneira invejável: apenas apreciando a carga dramática. Preciso lembrá-lo de que isso tudo se trata de Chuva, Chuva, quando o céu escurece às 16:30, quando o mundo canta Lust For Life pra vida.
Peguei o ônibus. Não foi como ao meio-dia, quando o bondoso Rio Branco/Anita aterrissou e me pôs em local seco e semi-vazio. Não. Este outro foi assim:





A Patrícia quer deixar de ser compulsiva e por isso me dá entre uma e duas carreiras do final da barra de chocolate que ela compra diariamente. Sempre. Ela era anoréxica.


Bem. É incrível o que se encontra em um ônibus em dia de chuva. Tinha um fio de espaguete no chão molhado. Bolas de chiclete em uma cabeça com olhos de sapo. Fios eletrizados de um calvo. A amistosidade do cobrador, encharcado até os joelhos. Me sentia uma boneca de camelô dentro de uma caixa úmida embalada com saco plástico. Os vidros fechados. O cheiro de couro. De vida. A celebração do reino Funghi.
Desci. Me lixava para as poças d’água. Passei por um garoto que se protegia em um orelhão. Nem senti medo, mas meu coração se partiu e eu quis dar 10 reais pra ele. Não podia. A única coisa que me dilacera é maldade com criança. Segui em frente, estava triste. Quis voltar. E chuva, chuva, chuva, chuva. Tinha que ir pelo cordão. Pensei que se alguém quisesse me raptar, seria fácil, afinal em estava na beira da Avenida Ipiranga. Mas, num dia desse tipo, as pessoas não querem nem aprontar. O Arroio Dilúvio transbordava, cheio, forte, viril; orquestrado. Não dava pra tirar os olhos. Foi quando a sinaleira abriu e eu atravessei a outra metade da Ipiranga. Já estava cansada e começava a admitir que estava fodida debaixo daquela chuva, com uma bolsa, uma saia de seda, uma sacola de papel, um guarda-chuva analógico, uma echarpe branca mal instalada e luvas rosas de lã, o que foi o pior: lã molhada é uma imagem equivocada da vida.
Então eu cheguei em casa e larguei tudo. LARGUEI TUDO. Leia largueitudo. Coloquei o guarda-chuva pra escorrer. Precisava me tirar de dentro das roupas: consegui. É preciso que você entenda, é preciso que você entenda: a beleza é o meu triunfo.

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