Eu tinha cerca de quatro anos. Era uma noite densa como aquelas que só há no verão, mas dentro do teatro o ar estava ameno. Lembro de poucas coisas, como as bitucas de cigarro do meu professor de balé, sua camisa preta camuflada nos bastidores, um murmurinho ansioso de pais e amigos. Era como se tivessem posto milhares de minhoquinhas amontoadas em poltronas de veludo, das quais só pudéssemos ver as cabeças sorridentes. E minhoca tem pé? Talvez estivessem brincando conosco e, na verdade, no lugar da cabeça, estariam era remexendo o bumbum.
Eu era pequena e calada, e desde sempre carregara comigo um par de olhos um pouco caídos. Sempre foram assim: de cor indefinida, desenho incerto. Tudo que sei é que ao longo de minha vida comecei a competir com a potência deles – quanto mais caídos, mais me empenho em desfigurar-me numa expressão de felicidade atroz; assim, me divirto ao imaginar minha monstruosa incoerência facial. Pois bem, aos quatro anos eu era a estrelinha azul de olhos caídos, e foi a primeira vez que me maquiaram. Não sabia o que era aquilo. Achei perfeitamente sem nexo.
Depois de tudo, já mais próxima do breu dos bastidores, com uma dezena de estrelinhas azuis eu me encontrava enfileirada: meu vestido tinha duas saias de cetim, bordados estelares em lantejoula na parte de cima, mangas duplas do mesmo princípio da saia; a meia-calça azul ficava um pouco empapada nos tornozelos, eu usava sapatilhas prateadas, carregava uma varinha e olhos glitterados e, em especial, tinha ganhado uma tiara. Esta tiara é a protagonista do conto: era prateada na base e tinha galhos azuis, carmins e prateados, imitando os astros que, na minha cabeça, davam-me um certo desconforto existencial.
Com o burburinho aumentando e minha coroa cósmica na cabeça, aproximei-me um pouco da gigantesca cortina vermelha. Olhei por um momento tão curto que só tive tempo de pensar nada, quando, ao voltar para meu lugar, minha tiara ficou enganchada na de outra menina! Ela era mais alta, mais magra, mais loira. Tenho a lembrança dela como se fosse a Xuxa. A purpurina rodava ao nosso redor enquanto ela tentava desesperadamente se livrar de mim, me jogando de um lado pro outro. Pensei que alguém da platéia poderia ver, ou que teríamos que entrar no palco daquele jeito mesmo. Quando ela finalmente conseguiu me desatar, resmungou um xingamento que eu nunca soube o que era. Como ela sentia raiva! Eu nunca tinha visto nada parecido, e, até o momento, estava puramente chocada. Mas foi então que enchi os meus olhos de lágrimas, entrei no palco com os braços em torno das estrelas, e dancei.
Eis a história da primeira vez em que me senti triste.